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Cineasta Erica de Freitas criou curso gratuito para mulheres

Fonte: http://bardebatom.com.br
"Sem diversidade, estamos desperdiçando talentos no cinema"
Cineasta Erica de Freitas criou curso gratuito para mulheres
Cineasta Érica de Freitas
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O Bar de Batom vem trazendo várias discussões sobre a mulher no contexto audiovisual brasileiro. Recentemente, fizemos uma entrevista com a curadora Kênia Freitas, que dá visibilidade para cineastas negras, e também com a crítica de cinema Samantha Brasil, uma das fundadoras do coletivo Elviras, rede de mulheres críticas.

A intenção é mostrar o avanço da participação e interesse de profissionais femininas em ocupar todas as áreas do setor: desde a direção, passando pelo roteiro à produção executiva, sendo este último um cargo ainda carente de representantes. A fim de contribuir com a formação de líderes femininas no cinema, a produtora executiva Erica de Freitas, sócia-proprietária da Encantamento Filmes, decidiu criar um curso na sua área de atuação.

Assim nasceu o Visionárias, um curso gratuito de produção executiva para cinema, destinado a mulheres (50% para negras) que não têm condições financeiras para arcar com esse tipo de orientação. A iniciativa aconteceu pela primeira vez em outubro de 2016, na cidade do Rio de Janeiro, e a segunda edição já está confirmada.

O Visionárias despontou durante a elaboração do projeto mestrado de Erica, que tinha o desejo de estudar a mulher negra no contexto executivo no cinema. "Eu comecei a entender que o problema está na falta de instrumentalização das mulheres negras, das quais geralmente desempenham papeis fragmentados no contexto executivo dos projetos audiovisuais - como a criação de orçamentos, análise técnica, organização de documentos, entre outros. Geralmente, elas não assumem o cargo de produtora executiva ou não são creditadas pelo trabalho em si. Então eu pensei, seria interessante se a gente pudesse ter um curso da área com a função de orientá-las", explica.

Erica, que sempre foi fascinada pelo cinema, conseguiu com muito esforço uma formação na área, na Universidade Gama Filho. A produtora não nasceu em uma família com privilégios, muito pelo contrário, por isso sabe o valor do seu sonho e tem plena consciência das dificuldades de ingressar e atuar no ramo. Além de enfrentar um mercado liderado por homens, em sua grande maioria brancos e machistas, a profissão também demanda uma pesada bagagem de experiência.

Isso porque, a produtora executiva de um filme, por exemplo, é quem administra todo o orçamento e busca recursos que serão direcionados à produção. É ela quem, juntamente com o diretor, procura os perfis de profissionais que atuarão no trabalho, faz a contratação e lida com todo o âmbito burocrático do projeto. Somado à isso, a produtora ainda é responsável por pensar em toda a parte estratégica de um filme, buscando os potenciais criativos e comerciais de uma obra cinematográfica.

"Trata-se de uma função de liderança, decisão e poder, por isso poucas mulheres estão nesse ambiente. Por essa razão, eu tinha em mente estender a quantidade de encontros, pois achava que uma oficina de um dia ou uma semana não eram suficientes", explica.

O Visionárias se tornou um curso de 12 encontros, com uma carga horária total de 84 horas, direcionados para mulheres sem condições de pagar uma faculdade. No total, foram 60 inscritas em apenas três dias, para 30 vagas inicialmente. Porém, por conta da demanda, mais cinco alunas puderam ingressar. A maioria tinham algo em comum: trabalhavam no ramo audiovisual, mas de forma totalmente informal.

"Embora elas produzissem muito, acabavam esbarrando em questões burocráticas: como perder o diretos de uma ideia, porque não tinham comprovação contratual ou impedidas de participar de um festival, com o seu próprio filme, pois não faziam ideia de que era preciso tirar CPB - Certificado de Produto Brasileiro", explica.

Erica mostrou para as alunas que no meio existe um caminho executivo, fortalecendo o pensamento delas como uma agente profissional. "O mais interessante foi poder passar informações de que existe um mercado para quem está instrumentalizado. Só assim será possível que essas mulheres reivindiquem cargos, levem os seus filmes a diante e continuem avançando", conta.

Por que temáticas como as do filme Moonlight, vencedor do Oscar de melhor filme em 2016, não são criadas no Brasil? Erica acredita que as discussões raciais, por exemplo, ainda estão muito atrasadas no país. "Ainda não conseguimos colocar o recorte racial de forma verdadeira no mercado", explica.

A produtora executiva presume que a diversidade é a esperança da renovação do cinema brasileiro. "Não temos muitos filmes sendo feitos com diversidade de vozes e opiniões. O cinema precisa de novas ideias, oriundas de quem tenha vivenciado um lado precário, porque é lá que estão as diferenças. Os abismos sociais têm muito o que nos ensinar."

Para a Erica, o mercado audiovisual ainda é feito por uma classe dominante resistente. "E essa própria classe não concorda com divergências ideias, não aceitam abordagens um pouco espinhosas, muito importantes dentro de um contexto audiovisual. Tudo isso é uma forma de pensamento histórico e a gente não tem esse histórico registrado e comercializado", afirma.

As produtoras, patrocinadores e distribuidoras ainda estão focados em números, atores famosos que representarão comercialmente o filme e o bom desempenho da bilheteria. No entanto, esses fatores são compreensíveis para Erica, afinal de contas, o cinema é uma atividade que demanda altos investimentos. Por isso, ela crê que a única saída é a profissionalização daquelas que já estão no meio e produzindo.

"O Brasil está desperdiçando muita história, talento e oportunidade de melhorar a sociedade. Precisamos aprender a nos comunicar e mostrar que existe espaço para a diversidade no mercado. Mostrar, para quem não acredita, que a diversidade vende e sempre vendeu. Desta maneira, devemos identificar quem são essas mulheres com energia, com vontade de levantar discussões e mudar o país."

A jornalista Marina Lemos Gonzaga é uma dessas mulheres que teve a vida e a profissão transformadas após o Visionárias. "A Erica conseguiu dar forma para varias ideias que eu não encontrava soluções para serem colocadas em prática. Como por exemplo, produzir filmes que abordam a diversidade, mas sem me afastar do cinema comercial", revela.

Por conta da experiência positiva e da autonomia adquirida, Marina ganhou uma vaga para fazer mestrado em produção audiovisual na França, na Aix-Marseille Université, perto da cidade de Marseille. "Depois que comecei as aulas o professor responsável por minha entrevista me disse que a faculdade me escolheu por conta do meu lado critico em relação à produção. E acho, que muito disso, surgiu por causa do Visionárias."

Marina quer concluir os estudos e retornar para o Brasil. "Meu plano é voltar e conseguir fazer parceria com novos diretores negros, produtores, coletivos de cinema na periferia que estão surgindo e reinventando o audiovisual brasileiro. E, quem sabe em um futuro, ter a minha própria produtora", afirma a estudante.

Próximo passo

Erica, que já esteve à frente de filmes como Vidas Partidas, co-produzida pela Globo Filmes e distribuída pela Europa Filmes, agora está com um novo projeto em andamento: Mulheres em Risco, uma série com 10 episódios, que contará histórias de violência doméstica. Cada episódio será dirigido por uma diretora. Ainda não há data de estreia.

Paralelamente à isso, ela organiza, novamente com o apoio do Pontão de Cultura e da Escola de Comunicação da UFRJ, o segundo ano do Visionárias, previsto para ser realizado em outubro, na cidade do Rio de Janeiro. As vagas do curso de produção executiva para cinema serão abertas nas próximas semanas. Fique por dentro de novas informações através da página oficial do projeto no Facebook.

Por Mayhara Nogueira

Fotos: Divulgação/Arquivo Pessoal

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